terça-feira, 1 de dezembro de 2009
O vero e o verossímil
domingo, 29 de novembro de 2009
A morte do gaminho
Machado além do apenas moderno
Ao proferir um discurso, falado ou escrito que seja, o escritor ou falante executa pelo menos duas operações teoricamente distintas, mas indiscerníveis na prática mecânica e condicionada do uso quotidiano da língua: ele escolhe, dentre o universo de palavras possíveis à sua disposição, aquelas que hão de integrar o seu discurso, e as organiza, arranja, arruma de maneira mais ou menos predeterminada pelas regras (não daquela) da gramática. Dito de outro modo, todo discurso possui um léxico e uma sintaxe, os quais tanto o singularizam como este discurso específico quanto o adaptam a situações e objetivos comuns a ele e muitos outros. O estilo de um escritor, portanto, nada mais é senão o uso especial, às vezes reconhecível desde o primeiro instante, que caracteriza a escolha e a organização das palavras daqueles discursos nos quais a presença do autor, mais ostensiva ou mais velada, é traço contínuo e marcante.
Segundo Aristóteles (Retórica, livro I), o bom discurso é aquele que adapta seu léxico e sua sintaxe à natureza do seu tema, à situação em que é proferido, ao público a que se destina e ao objetivo que busca. Sem precisarmos ser aristotelicamente minuciosos, diríamos apenas que o bom escritor, possivelmente, se reconhece pela relação indissolúvel que o seu texto estabelece entre as palavras escolhidas e organizadas em frases, de um lado, e o assunto abordado nele, de outro. Figuras de linguagem, demonstrações de habilidade técnica e perícia narrativa, grandeza dos períodos e até o ritmo das frases só se justificam, portanto, se forem ocasionados, na verdade exigidos pelo assunto em questão. Parafraseando o mesmo Aristóteles (agora na Poética): o bom escritor não diz o que quer, mas o que o seu texto requer.
É neste sentido aristotélico, pois, que podemos afirmar ser Machado de Assis, não apenas bom, senão grande escritor. “Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei lhe meti algumas rabugens de pessimismo.” – quem não se lembra deste famoso trecho da advertência ao leitor, logo à entrada das Memórias póstumas de Brás Cubas? Segundo Sergio Paulo Rouanet (Riso e melancolia, Cia das Letras, 2007), aliás, este trecho conteria justamente o programa literário que a partir desta celebrizou a maior parte da obra de Machado de Assis. Ao que acrescentaríamos: a “forma livre” a que este último se refere seria precisamente o seu estilo digressivo, não-linear, dado a variar o registro léxico e a construção sintática – precisamente o mais apto a contar uma história, como esta e várias outras anteriores e posteriores no tempo, feita de anedotas mais ou menos díspares, guinadas temporais e detalhes aparentemente fortuitos.
Ademais, o Brás Cubas narrador, como também o Conselheiro Ayres narrador, ao se distanciar, taticamente, do que é narrado, aumenta ainda mais o espaço para que o escritor Machado de Assis, daquela maneira saborosa que lhe é peculiar, se entregue às suas famosas digressões e frases de efeito. Seu estilo, no entanto, consegue exemplarmente manter o equilíbrio entre as circunvoluções digressivas e a linha reta do enredo – tão exemplarmente que distinguir entre digressão e narração, nas grandes obras da maturidade do autor, é expediente meramente didático que não descreve o principal: na sua escrita as duas andam juntas.
De que maneira, enfim, os valores estilísticos contidos na sua obra poderiam responder às demandas artísticas do nosso próprio tempo? É evidente que não é possível responder a esta pergunta nos limites exíguos deste texto. Mas se nos for possível apenas sugerir uma resposta, diríamos que o estilo dinâmico, plástico, mas elegantemente equilibrado de Machado de Assis parece responder às exigências de flexibilidade, rapidez e vivacidade do mundo atual; e que ele, enquanto tais valores forem prezados, continuará gozando da universalidade relativa que cabe a entes periféricos como nós. Se é que é razoável, como quer que seja, – e agora voltamos à lição de Gilberto Freyre – supor que os valores destacados na prosa machadiana tenham um como que fundamento antropológico, uma como que correspondência na maneira de fazer, sentir e compreender o mundo que porventura nos caracterize a nós brasileiros (o que é altamente duvidoso), então a literatura de Machado de Assis, e por meio dela e com ela também a nossa cultura, parece que pode ter alguma coisa a acrescentar, a despeito de insistentes provas contrárias de alguns compatriotas, à tentativa permanentemente universal de compreender a aventura humana.
Salve Machado de Assis. Clássico. Moderno. Além.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Os clássicos: Horácio, Ode 3, 30
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
"Un parlar tutto splendido e tutto sublime"
Facea ne l'oriente il sol ritorno,
sereno e luminoso oltre l'usato,
quando co' raggi uscì del novo giorno
sotto l'insegne ogni guerriero armato,
e si mostrò quanto poté piú adorno
al pio Buglion, girando il largo prato.
S'era egli fermo, e si vedea davanti
passar distinti i cavalieri e i fanti.
Mente, de gli anni e de l'oblio nemica,
de le cose custode e dispensiera,
vagliami tua ragion, sí ch'io ridica
di quel campo ogni duce ed ogni schiera:
suoni e risplenda la lor fama antica,
fatta da gli anni omai tacita e nera;
tolto da' tuoi tesori, orni mia lingua
ciò ch'ascolti ogni età, nulla l'estingua.
"E si mostrò quanto poté più adorno/ al pio Buglion": significante e significado são uma coisa só, o estilo é másculo, ornado a mais não poder, e a cena é um cortejo militar. Conseguirá o poeta fazer jus à elevação e importância da sua matéria?
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Isto é Brasil
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
"Inhians spirantia consulit exta"

