Quando eu cursava Filosofia na Universidade de São Paulo, professores e alunos fumavam tranqüilamente durante a aula. Não vou dizer que fosse agradável, pois não era. Tratava-se de uma herança de priscas eras, com inconfundível tempero francês, e que ali, então, se perpetuava. E como tal, a meu ver, era legítimo e até desejável.
E perpetuava-se, creio, à margem da letra da lei: pois o ano era o de 1998, e suponho que o fumo já houvesse sido proibido em sala de aula. Ou seja: tratava-se daquele capricho bem brasileiro de simplesmente desconsiderar medidas e decretos despropositados; daquele descumprimento de quanta regulação impertinente viesse perturbar o que o sensato costume já instituíra e consagrara; de ignorar, com muito bom-senso, uma lei que simplesmente 'não pegou' e não devia pegar.
Mas isso, meus caros, é passado. Hoje não há lei que 'não pegue', e ponto final: todas as sandices que sancionam nós vamos cumprindo, e a sociedade vê mesmo com maus olhos -- ao contrário de antigamente -- quem deixe de seguir à risca a letra da lei. O Brasil perdeu aquela maleabilidade, aquele 'amolecimento dos homens e das instituições' que, nas palavras do mestre de Apipucos, era sinônimo de 'abrasileirar-se'.
É por isso que, segundo leio nos noticiários, a grande, a imprescindível, a intocável lei anti-fumo pode fechar a Pontifícia Universidade Católica. É estúpido. É um entendimento rígido, e três vezes estúpido, dessa lei. Sua pertinência e oportunidade e grandeza simplesmente não dão conta da PUC. Não 'incluem' a PUC. Mas para os ecochatos que, presumivelmente, denunciaram o descumprimento da lei no interior da universidade, convocando a policiamento politicamente correto, incluem e devem incluir.
Eles, porém, não sabem no que devem, no que não devem pegar: pegam em tudo o que se lhes dê, incluem tudo.
Banana neles!
