terça-feira, 10 de novembro de 2009

Banana neles!

Quando eu cursava Filosofia na Universidade de São Paulo, professores e alunos fumavam tranqüilamente durante a aula. Não vou dizer que fosse agradável, pois não era. Tratava-se de uma herança de priscas eras, com inconfundível tempero francês, e que ali, então, se perpetuava. E como tal, a meu ver, era legítimo e até desejável.
E perpetuava-se, creio, à margem da letra da lei: pois o ano era o de 1998, e suponho que o fumo já houvesse sido proibido em sala de aula. Ou seja: tratava-se daquele capricho bem brasileiro de simplesmente desconsiderar medidas e decretos despropositados; daquele descumprimento de quanta regulação impertinente viesse perturbar o que o sensato costume já instituíra e consagrara; de ignorar, com muito bom-senso, uma lei que simplesmente 'não pegou' e não devia pegar.
Mas isso, meus caros, é passado. Hoje não há lei que 'não pegue', e ponto final: todas as sandices que sancionam nós vamos cumprindo, e a sociedade vê mesmo com maus olhos -- ao contrário de antigamente -- quem deixe de seguir à risca a letra da lei. O Brasil perdeu aquela maleabilidade, aquele 'amolecimento dos homens e das instituições' que, nas palavras do mestre de Apipucos, era sinônimo de 'abrasileirar-se'.
É por isso que, segundo leio nos noticiários, a grande, a imprescindível, a intocável lei anti-fumo pode fechar a Pontifícia Universidade Católica. É estúpido. É um entendimento rígido, e três vezes estúpido, dessa lei. Sua pertinência e oportunidade e grandeza simplesmente não dão conta da PUC. Não 'incluem' a PUC. Mas para os ecochatos que, presumivelmente, denunciaram o descumprimento da lei no interior da universidade, convocando a policiamento politicamente correto, incluem e devem incluir.
Eles, porém, não sabem no que devem, no que não devem pegar: pegam em tudo o que se lhes dê, incluem tudo.
Banana neles!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Quero, não quero

  • Não quero ouvir a nona de Beethoven, nem aquela bachiana brasileira na voz de Bidu Sayão, nem, como nunca quis, a chatíssima, e vulgaríssima, rhapsody in blue.
  • Quero um filme do Tarkóvski sobre a vida de Torquato Tasso; podia até ser do Bergman, eu não reclamava.
  • Quero uma montagem fiel fidelíssima da Phèdre de Racine. Só o texto. Em francês.
  • Não quero o 'Brasil de todos', nem o 'nunca-antes-neste-país': a nação patroni causa que põe Toffoli no Supremo.
  • Quero (sempre quis) o imperador de volta: assim nos livraríamos das novelas do Manoel Carlos e do Jornal Nacional ao mesmo tempo, substituídos por 'A semana na corte' ou coisa que o valha.
  • Não quero o estúpido SPFC campeão. Não quero, não quero e não quero.
  • Quero ouvir o sexteto op. 70 de Tchaikóvski ao vivo: 'Souvenir de Florence'.
  • Quero que me reconheçam como a minha mãe me reconhece.
  • Não quero trabalhar: só ler, escrever, ir a um e outro concerto, a uma e outra exposição ou peça, e procriar bastante. Sempre com dinheiro no bolso, é claro.
  • Resumindo: quero o mínimo para ser feliz, e não quero ouvir um não.

René Girard


Quarta-feira que vem, 11/11, às 19h, no Espaço É Realizações, R. França Pinto, 498, Vila Mariana, São Paulo, ocorrerá o lançamento de "Mentira romântica e verdade romanesca" de René Girard, com palestra do estudioso britânico James Alison. Não percam!

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A verruga de José Rodrigo

Conheci o poeta José Rodrigo Rodriguez em 2001, se não me engano, nas reuniões de um então recém-fundado grupo de estudos do qual faziam parte, entre outros, Luiz Reppa, Priscila Figueiredo e Rúrion Soares Melo. Nosso modesto propósito era ler toda a Teoria estética de Adorno, e acho que foi justamente a modéstia que nos impediu de realizá-lo... O grupo, porém, para todos os efeitos, durou uns 2 anos; mas José Rodrigo e eu o abandonamos um pouco antes disso.
Foi naquela época que notei uma verruga no Zé, uma discreta marca, próxima a uma das suas orelhas -- creio que a esquerda, talvez, (ou à minha esquerda) mas se for a direita, tudo bem. José Rodrigo sempre foi um inquieto, um curioso, um sujeito intelectualmente imprevisível: vir bonus peritus dicendi.
Junto com a verruga, conheci também sua poesia. Radicalmente moderna mas lírica, essencialmente lírica. Como a de Stevens, (ouso dizer) seu poeta predileto. E essa verruga, meus caros, é justamente o que eu queria apresentar a vocês.
A VERRUGA
José Rodrigo Rodriguez


Ele estava parado ali
talvez não suficientemente parado,
os pêlos, olhos e o vento,
dilatação das narinas,
as costas sobre a mureta
ondulando com o asfalto
sob o peso da escavadeira.

Ele estava parado ali,
cravado como uma lagosta
no prato que ainda respirasse
nas mãos que ainda nos vissem,
chegando por trás dos dentes
bueiros, pás, cal e cabelos.

Mão parada sobre o braço
sem evitar as ferramentas,
óculos, luvas, capacete,
espalhadas pedras, cimento,
furando as paredes com os cotovelos
e afastando as árvores do caminho.

As mãos estáticas brancas,
guardando distância das imagens,
evitando implicações
serenadas
de todo corpo em movimento:
ele todo parado ali
sem traço de cumplicidade.

Um moto perpétuo, agora
as alças de couro sem pinças,
a rotação feérica das garras
nessa construção sem portas,
sem traço de alfazema.

Essa construção, um furúnculo
um calombo no meio das costas
e setas pontiagudas
uma protuberância,
um cancro, uma espinha,

ele parado ali
como

verruga.

Os clássicos: Hugo von Hofmannsthal, "Pergunta"

Caros,
Aproveitando o ensejo da tradução de Uma carta, resolvi dedicar minha coluna quinzenal "Os clássicos", no Terra Magazine, justamente a Hofmannsthal... O poema escolhido foi "Pergunta", escrito aos dezesseis anos, primeira publicação do poeta. É simplesmente incrível. Não deixem de conferir.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Só o gostinho

Segue abaixo um pequeno trecho de Uma carta -- dita também de lorde Chandos --, de Hofmmansthal, em que, com a toda a elegância que lhe é peculiar, o poeta descreve a crise espiritual da modernidade, a neurose que se abateu, especialmente, sobre a arte e a poesia. Quem quiser ler na íntegra, confira a Dicta número 4, em breve nas melhores livrarias:
"Primeiro, e pouco a pouco, fui ficando inapto a discorrer sobre temas gerais e de mais alta monta, e não dava com as palavras de que toda a gente, sem a mais mínima hesitação, costuma se servir. A simples menção de termos como ‘espírito’, ‘alma’ e ‘corpo’ me causava um inexplicável mal-estar. Ao que me tocava a mim, achava impossível portar um julgamento sobre os negócios da corte, os sucessos do parlamento ou o que quer que venhais a imaginar. E isso não por uma qualquer forma de decoro, pois sabeis que minha franqueza pode chegar a leviandade: senão as palavras propriamente abstratas, de que naturalmente a língua lança mão para formular qualquer juízo, desfaziam-se em minha boca como cogumelos podres. Ora, aconteceu-me então repreender minha filha Catarina Pompília, que contava quatro anos, por uma mentira que inventara, e querer que compreendesse o elevado mister de falar sempre a verdade, quando os conceitos que afluíam à minha boca assumiram de repente tantos e tão variados matizes, imbricando-se um no outro, que não pude mais que precipitar o final da sentença, qual se fora acometido de um mal súbito – e, efetivamente, com rosto pálido e feroz dor de cabeça, deixei a criança entregue a si própria, cruzei a porta atrás de mim e apenas consegui bem ou mal me recompor depois de um galope a cavalo pelo pasto solitário."

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Não é preguiça...

Caros,
Sei que muitos, com toda a justiça, aliás, pensarão que ando meio preguiçoso, constatando que há um bom tempo já não escrevo um texto de fôlego aqui no Ars poetica. Traduções (Leopardi, Hofmannsthal e ainda Gilson, que não acabei), aulas de latim, e os encargos do doutorado, porém, cujo momento-chave me obriga (êta obrigação boa!) a estudar métrica e prosódia grega como louco, sugam meu tempo quase por completo, coisa que necessariamente influi na qualidade e no tamanho dos nossos textos. Além de tudo, qual não foi minha alegria ao receber, hoje pela manhã, a notícia da aprovação, por parte da CAPES, do meu pedidio de estágio de um ano a realizar-se na Itália, junto à Università degli studi di Roma 'La Sapienza'. Oxford e Cambridge podem ser os maiores centros de estudos clássicos do mundo; mas a Itália é um tratado de Filologia a céu aberto...
Estou às voltas, pois, além do sobredito, com estudos de italiano para a prova de proficiência. Pelo que releio La Commedia, que muitos chamaram de divina.
Continuarei a escrever como e quanto puder; só peço a benevolência do amigo leitor -- que não há de ser menor que a de Francis Bacon, suposto destinatário de Ein Brief, a carta de lorde Chandos, uma das pedras-de-toque de toda poética pós-romântica.