terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O vero e o verossímil

Vocês já devem estar cansados de 'Aristóteles isso', 'Aristóteles aquilo', aqui neste blogue. Não tenho culpa; como diz o adágio medieval: Amicus Plato, sed magis amica veritas. Quando ainda cursava a faculdade de filosofia, costumava dizer aos meus colegas, um pouco enfurecidos com essa coisa de Aristóteles ser 'o' Filósofo, assim com maiúscula: a verdade é chata, não se incomodem. Bem, toda essa lengalenga só para dizer que, segundo leio por aí, a imprensa brasileira anda deplorando a declaração do ator Robin Williams, segundo quem Chicago mandara Oprah e Michelle Obama para o comitê olímpico internacional -- mas o Rio, tendo enviado 50 strippers e meio quilo de cocaína, venceu justamente por isso.
Ah, ah, ah, ah!
A patrulha politicamente correta que vá às favas -- e agora volto à inolvidável lição de Aristóteles no capítulo 9 da Poética: nem tudo o que sucede é verossímil (por exemplo, sucedeu que o Rio ganhou a disputa para cidade-sede das Olimpíadas, contra todo o bom-senso e toda a verossimilhança); mas o verossímil, ainda que não haja sucedido, é tão 'próximo' ou 'símile' da verdade que poderia muito bem suceder, num momento ou em outro (um hipotético (?) jogador brasileiro levando meio quilo de pó e 50 piranhas para o comitê olímpico).
Como diz Montaigne, Aristóteles escreveu para ser compreendido; se o não pôde até agora, paciência!, fazer o quê?

domingo, 29 de novembro de 2009

A morte do gaminho

a João Carlos Leme Tinoco Funck
Foi feita a justiça divina: e a mais antipática, sem-sal e politicamente correta das equipes brasileiras de ludopédio -- cujo símbolo é um gaminho, ou, em vulgar, um veadinho saltitante -- perdeu o título hoje no estádio Serra Dourada, em Goiás. Todos os amantes do verdadeiro futebol (o futebol-real, não o futebol-idéia) estamos exultantes. Mas os torcedores da Sociedade Esportiva Pernetas não se animem não: mais uma vez vocês gastaram o que não tinham, mais uma vez vocês deram com os burros n'água. Que pena, não?

Machado além do apenas moderno

Como todos, também eu li muito Machado de Assis. Aprendi muito; mas hoje não o incluiria entre meus modelos. Segue, no entanto, abaixo o original de um meu texto publicado na revista Língua portuguesa deste mês, mutilado e sem o meu consentimento. (Vou escrever eo editor reclamando.) Quem quiser ler essa versão, clique aqui. Quem preferir a versão completa, apenas siga lendo. Abraço. E.
Em livro, como de costume, célebre, lançado em 1973 com o título de Além do apenas moderno, Gilberto Freyre mais uma vez inaugurava, pioneiro, o estudo de uma disciplina inédita no Brasil: a Futurologia. Seu intuito, nele, era mostrar que certos traços das culturas hispanotropicais, considerados tradicionalmente arcaicos por certa razão norte-européia e norte-americana, – tais como o relativo primado do ócio sobre o negócio, da intuição sobre o cálculo, do hibridismo sobre a pureza de sangue, por exemplo, – mostravam-se atualíssimos como possível resposta a demandas capitais de nossa época. Com efeito, num momento em que os avanços técnico-científicos aumentavam a expectativa de vida e o tempo livre e encurtavam a distância entre os povos, a questão de como organizar este tempo excedente e de como se comportar em face de culturas e costumes estranhos se colocava, e se coloca ainda, de maneira premente. E nisto – em gozar o tempo ocioso e em ser pitorescamente flexível para com o estranho, o novo, o estrangeiro –, nisto, dizia Gilberto Freyre, as culturas hispanotropicais, em geral, e a brasileira, em particular, são proverbialmente exemplares. Ora: mas o que todo este prólogo teria que ver com as celebrações dos cem anos da morte de Machado de Assis e o estilo – o tema deste ensaio – que o consagrou como um dos maiores mestres da língua portuguesa? Senão vejamos.
Ao proferir um discurso, falado ou escrito que seja, o escritor ou falante executa pelo menos duas operações teoricamente distintas, mas indiscerníveis na prática mecânica e condicionada do uso quotidiano da língua: ele escolhe, dentre o universo de palavras possíveis à sua disposição, aquelas que hão de integrar o seu discurso, e as organiza, arranja, arruma de maneira mais ou menos predeterminada pelas regras (não daquela) da gramática. Dito de outro modo, todo discurso possui um léxico e uma sintaxe, os quais tanto o singularizam como este discurso específico quanto o adaptam a situações e objetivos comuns a ele e muitos outros. O estilo de um escritor, portanto, nada mais é senão o uso especial, às vezes reconhecível desde o primeiro instante, que caracteriza a escolha e a organização das palavras daqueles discursos nos quais a presença do autor, mais ostensiva ou mais velada, é traço contínuo e marcante.
Segundo Aristóteles (Retórica, livro I), o bom discurso é aquele que adapta seu léxico e sua sintaxe à natureza do seu tema, à situação em que é proferido, ao público a que se destina e ao objetivo que busca. Sem precisarmos ser aristotelicamente minuciosos, diríamos apenas que o bom escritor, possivelmente, se reconhece pela relação indissolúvel que o seu texto estabelece entre as palavras escolhidas e organizadas em frases, de um lado, e o assunto abordado nele, de outro. Figuras de linguagem, demonstrações de habilidade técnica e perícia narrativa, grandeza dos períodos e até o ritmo das frases só se justificam, portanto, se forem ocasionados, na verdade exigidos pelo assunto em questão. Parafraseando o mesmo Aristóteles (agora na Poética): o bom escritor não diz o que quer, mas o que o seu texto requer.
É neste sentido aristotélico, pois, que podemos afirmar ser Machado de Assis, não apenas bom, senão grande escritor. “Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei lhe meti algumas rabugens de pessimismo.” – quem não se lembra deste famoso trecho da advertência ao leitor, logo à entrada das Memórias póstumas de Brás Cubas? Segundo Sergio Paulo Rouanet (Riso e melancolia, Cia das Letras, 2007), aliás, este trecho conteria justamente o programa literário que a partir desta celebrizou a maior parte da obra de Machado de Assis. Ao que acrescentaríamos: a “forma livre” a que este último se refere seria precisamente o seu estilo digressivo, não-linear, dado a variar o registro léxico e a construção sintática – precisamente o mais apto a contar uma história, como esta e várias outras anteriores e posteriores no tempo, feita de anedotas mais ou menos díspares, guinadas temporais e detalhes aparentemente fortuitos.
Ademais, o Brás Cubas narrador, como também o Conselheiro Ayres narrador, ao se distanciar, taticamente, do que é narrado, aumenta ainda mais o espaço para que o escritor Machado de Assis, daquela maneira saborosa que lhe é peculiar, se entregue às suas famosas digressões e frases de efeito. Seu estilo, no entanto, consegue exemplarmente manter o equilíbrio entre as circunvoluções digressivas e a linha reta do enredo – tão exemplarmente que distinguir entre digressão e narração, nas grandes obras da maturidade do autor, é expediente meramente didático que não descreve o principal: na sua escrita as duas andam juntas.
De que maneira, enfim, os valores estilísticos contidos na sua obra poderiam responder às demandas artísticas do nosso próprio tempo? É evidente que não é possível responder a esta pergunta nos limites exíguos deste texto. Mas se nos for possível apenas sugerir uma resposta, diríamos que o estilo dinâmico, plástico, mas elegantemente equilibrado de Machado de Assis parece responder às exigências de flexibilidade, rapidez e vivacidade do mundo atual; e que ele, enquanto tais valores forem prezados, continuará gozando da universalidade relativa que cabe a entes periféricos como nós. Se é que é razoável, como quer que seja, – e agora voltamos à lição de Gilberto Freyre – supor que os valores destacados na prosa machadiana tenham um como que fundamento antropológico, uma como que correspondência na maneira de fazer, sentir e compreender o mundo que porventura nos caracterize a nós brasileiros (o que é altamente duvidoso), então a literatura de Machado de Assis, e por meio dela e com ela também a nossa cultura, parece que pode ter alguma coisa a acrescentar, a despeito de insistentes provas contrárias de alguns compatriotas, à tentativa permanentemente universal de compreender a aventura humana.
Salve Machado de Assis. Clássico. Moderno. Além.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Os clássicos: Horácio, Ode 3, 30

Segue o link da minha coluna de hoje no Terra, dedicada a Horácio. Abraço. E.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

"Un parlar tutto splendido e tutto sublime"

A grande poesia, em particular, e, em geral, toda grande arte, além de técnica, e de talento, é também uma espécie de obsessão, agridoce obsessão. Ora, poucos poetas tenho lido, ou mais técnicos, ou mais talentosos, ou, finalmente, mais obsessivos que Torquato Tasso (1544-1595), tanto na lírica e no epistolário, quanto, em especial, na Jerusalém libertada, suma da vida e da obra do autor.
Leiamos a trigésima quinta e a trigésima sexta estrofe do primeiro canto:

Facea ne l'oriente il sol ritorno,
sereno e luminoso oltre l'usato,
quando co' raggi uscì del novo giorno
sotto l'insegne ogni guerriero armato,
e si mostrò quanto poté piú adorno
al pio Buglion, girando il largo prato.
S'era egli fermo, e si vedea davanti
passar distinti i cavalieri e i fanti.

Mente, de gli anni e de l'oblio nemica,
de le cose custode e dispensiera,
vagliami tua ragion, sí ch'io ridica
di quel campo ogni duce ed ogni schiera:
suoni e risplenda la lor fama antica,
fatta da gli anni omai tacita e nera;
tolto da' tuoi tesori, orni mia lingua
ciò ch'ascolti ogni età, nulla l'estingua.


Depois de receber o arcanjo Gabriel, Goffredo se certifica da santidade da sua empresa, reúne os cruzados, anima-os, e é aclamado comandante-em-chefe das forças cristãs. No dia seguinte, "Facea nel oriente il sol ritorno", os soldados se lhe apresentam diante, e, inspirada no famoso epísódio do catálogo das naus, da Ilíada, inicia-se a minuciosa, elegante, faustosa descrição dos capitães e seus exércitos.

"E si mostrò quanto poté più adorno/ al pio Buglion": significante e significado são uma coisa só, o estilo é másculo, ornado a mais não poder, e a cena é um cortejo militar. Conseguirá o poeta fazer jus à elevação e importância da sua matéria?

"Mente, de gli anni e de l'oblio nemica", diz, pois, o poeta, invocando a Musa. (Não me dou muito bem com a tecnologia: mas seria necessário recitar em voz alta a música sublime desses versos, que soa como trombetas, cavalos e espadas, e deixar disponível para o leitor escutar e julgar por si.) E no final a confiança no próprio poder: "orni mia lingua".
Por mais de trinta anos o poeta esmerou sua dicção e poliu esses versos. São vinte cantos, com uma média de pouco mais de cem estrofes cada, em que se perfilam batalhas, intrigas, angústias, amores, morte e a vida toda, enfim, diante dos nossos olhos. Ao lado dessa, mesmo a poesia de um Eliot -- autor de que gosto cada vez menos, é verdade -- é pobre e meio infantil. A conta é simples: quanto mais complexo o tema, e o estilo em que se lhe trata, mais complexa -- e portanto maior, como já disse Aristóteles -- a beleza que daí resulta. Apenas Milton, e Goethe depois dele, se compara nisso ao esplêndido Tasso. A beleza é difícil, fazer o quê?

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Isto é Brasil

Segundo o STF, os crimes de Battisti são comuns, e ele teria, pois, de ser extraditado. Mas só o será se o presidente quiser. Ou seja: ele TEM de ser extraditado, mas só vai sê-lo se Lula QUISER. Que palhaçada é essa? Se o presidente decide, pra que STF?

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

"Inhians spirantia consulit exta"

"Imaginação continuamente fresca e operante se requer para saisir as relações, as afinidades, as semelhanças reais ou aparentes -- numa palavra: poéticas -- dos objetos e das coisas entre si; ou para descobrir essas relações, ou para inventá-las, coisa que é preciso fazer ininterruptamente se se quer um estilo metafórico e figurado [...]. Todas essas coisas são necessárias a um estilo como o de Virgílio (e mais ou menos também aos demais: mas o estilo de Virgílio é precisamente o mais poético de quantos se conhecem, e talvez o non plus ultra da poeticidade); e esses são os meios que utiliza e os efeitos que alcança." (Zibaldone, 3718.)
Esse é um dos muitos passos em que, nas milhares de páginas do Zibaldone, obra singularíssima, Giacomo Leopardi se refere a Virgílio. Virgílio, o maior dos poetas, o poeta dos poetas: por dezenove séculos ele esteve lá, incólume no ponto mais alto do cânon, e ninguém, exceto um certo Alighieri, talvez, chegara jamais a ameaçar-lhe a primazia.


Hoje sabemos que a situação é diferente. Não para mim, a bem da verdade, que prefiro o juízo de dezenove à loucura dos últimos dois séculos. Tentar entender por que Virgílio esteve tanto tempo lá onde esteve é, porém, o intuito desta nota.
Leopardi dá o tom: é preciso possuir uma ativa e atuante imaginação para forjar as metáforas que um estilo figurado requer; o poeta e erudito italiano, porém, aqui como em tudo, reelabora uma idéia clássica: segundo Aristóteles, o poeta, antes de tudo o mais, deve ser 'metafórico'; i.e., deve ser naturalmente apto a perceber in re ipsa as semelhanças entre as coisas, segundo um esquema A está para B assim como C para D, e deve aprender e exercitar a técnica verbal de bem exprimir o que percebeu. De um lado, aptidão natural; do outro, técnica adquirida: e da soma o poeta acabado, gênio e artesão.
A poesia clássica, portanto, pode ser entendida como um jogo, um delicioso jogo da razão e da emoção conjuntamente: como 'descrever' poeticamente um estado de coisas, de modo tal que as palavras empregues revelem o lado insólito, incomum, pungente do que se descreve? É dessa arte refinadíssima, meus caros, de, por meio do uso 'impróprio' ou metafórico dos significantia, iluminar de um jeito novo os significata, que Virgílio é o mestre insuperável. Um único exemplo deve bastar:


"... inhians spirantia consulit exta." (Aen. IV, 64)


É Dido que está inhians, i.e., 'boquiaberta' ou simplesmente 'aberta', 'escancarada'; é ela também que consulit, que 'consulta' e 'examina', como um juiz, as exta, as 'entranhas' de um animal que oferece em holocausto. A essas entranhas ou vísceras, porém, se acrescenta o adjetivo spirantia, um particípio presente como inhians, significando, por sua vez, literalmente 'ofegantes', mas, aqui, presumivelmente 'pulsáteis'. A cena é clara, é até de um certo mau gosto para olhos muito delicados: a rainha examina as entranhas ainda vivas de um animal oferecido aos deuses. As palavras com que o poeta a descreve, contudo, tornam-na antológica: Dido está 'aberta' como o animal; suas são as entranhas à mostra, que ofegam e pulsam de amor por Enéias; e quem consulit tudo isso é o felizardo leitor, que Virgílio (como Dante já sabia) sempre leva pela mão...
A grande poesia está nesse jogo, insisto. A palavra em sentido 'impróprio' nos revela o que é próprio da mesma coisa a que se refere, mas antes dela não percebíamos. E nisso, de todos os poetas gregos e latinos e modernos, ninguém jamais superou o divino Virgílio. Ave, Vergili.