A publicação, em 2010, pela editora Perspectiva, de Poética do traduzir, de Henri Meschonnic (1932-2009), se não recebeu a devida atenção dos suplementos culturais, nem por isso deixou de celebrar-se, nos círculos universitários: com efeito, trata-se do opus magnum do pensador e poeta francês de origem judia, referência constante a todos os que, além de simplesmente traduzir, se propõem a pensar como fazê-lo bem.
Mas com isso de fazer bem feito, meus caros, começam os problemas da edição brasileira.
Há pelo menos um erro a cada três páginas -- ou de revisão, ou de estilo, ou (pasmem) de francês, língua esotérica, como todos sabemos, e restrita a uns poucos iniciados.
Afora 'Pamachio' por 'Pamáquio', 'Ésquino' por 'Ésquines', e outros deslizes do gênero -- todos devidos à decadência dos estudos clássicos em nosso sistema de ensino, e, pois, relativamente generalizados, entre os tradutores de hoje --, há prodígios como "Ênio escreve que há [o certo é "tem"] 'três almas' porque ele fala o latim, o grego e o osco." (XLIV) e "Desviar-se da poética leva inevitavelmente à hermenêutica de Heidegger, como ele [?] aparecia claramente em Antoine Berman..." (5), que apenas um medíocre, um pífio conhecimento do dificílimo francês tornaram possíveis. É deplorável.
O pior disso tudo é a Perspectiva, uma casa de respeito, haver deixado passar tantos erros, gralhas e disparates sem se dar por achada. No frigir dos ovos, Meschonnic é um autor secundário, chato e repetitivo; mas tem lá o seu charme e, no universo absolutamente supérfluo do discurso sobre tradução, a sua relativa importância. Foi sobretudo um estilista cuidadoso; donde a edição brasileira, prenhe de erros infantis, ser uma mancha na sua reputação.
Querem uma dica, editores? Contratem gente que saiba, e comecem a pagar um pouquinho melhor. Fui!
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