quinta-feira, 13 de outubro de 2011

El-rei Camões

Nenhum poeta, em nossa língua, nenhuma técnica e nenhum jeito de dizer o que se deve (não o que se quer) dizer me ensinou tanto quanto el-rei Camões e, com o perdão da rima, as suas canções. Segue um extrato da de número 10. Leiam, reflitam. Em breve eu volto, e o comento aqui com vocês. 


Pois quem pode pintar a vida ausente,
com um descontentar-me quanto via,
e aquele estar tão longe donde estava;
o falar, sem saber o que dizia;
andar, sem ver por onde, e juntamente
suspirar sem saber que suspirava?
Pois quando aquele mal me atormentava
e aquela dor que das tartáreas águas
saiu ao mundo, e mais que todas dói,
que tantas vezes sói
duras iras tornar em brandas mágoas?
Agora, co furor da mágoa irado,
querer e não querer deixar de amar,
e mudar noutra parte por vingança
o desejo privado de esperança,
que tão mal se podia já mudar;
agora, a saüdade do passado
tormento, puro, doce e magoado,
fazia converter estes furores
em magoadas lágrimas de amores?


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