domingo, 5 de julho de 2009

"Forja a língua na bigorna da verdade"

É conhecida a 'dificuldade' da poesia de Píndaro (518-438 a. C.), mesmo entre os helenistas. Provavelmente canonizado em vida, considerado pelos alexandrinos como o equivalente lírico de Homero, e celebrado por Horácio como uma espécie de força da natureza, não da arte -- "fervet immensusque ruit profundo/ Pindarus ore" --, o cisne de Tebas se transformou em sinônimo de elevação, grandiloqüência, rebuscamento e abundância em poesia: característicos que, sustentados por um como que 'otimismo ontológico', e sancionados por uma confiança irrestrita na justiça dos deuses, lhe valeram o virtual banimento do cânone ocidental, pelo menos desde que um certo relativismo, no domínio da ética, e um repúdio às convenções herdadas, no da estética, passaram a ser a nota dominante no concerto de nossa civilização.
Seguindo o gramático alexandrino Neoptólemo de Pário, Horácio divide o gênero lírico em cinco espécies principais, segundo um grau decrescente de dignidade temática e estilística: hino, encômio, epinício, lírica amorosa e lírica simposial. Das cinco, as três primeiras são laudatórias, i.e., buscam louvar ou celebrar, respectivamente, deuses, heróis e desportistas vencedores. A ode epinícia, pois, espécie lírica que Píndaro levou à perfeição, elogiava os vencedores das diversas competições desportivas da Grécia clássica. "Ó rei Ronaldo, cuja banha d'oiro/ balouça quando a rede a bola fura..." -- exemplo que demonstra cabalmente, e a olhos vistos, que esta poesia é hoje impraticável.
Além disso, a ode epinícia parece ter nascido com Simônides de Ceos, poeta apenas quarenta anos mais velho que Píndaro, e com este morreu. Não obstante -- e a despeito de Píndaro ser mesmo inimitável --, poetas tão distintos quanto Horácio, Ronsard, Milton, Hoelderlin, Leopardi, Hopkins, Saint-John Perse e Bruno Tolentino são em certa medida pindáricos, num ou noutro aspecto de sua poesia. A circunstância, porém, de que o juízo crítico mais influente do nosso tempo -- o juízo crítico de Pound -- condenou expressamente a poesia de Píndaro me parece explicar, em boa medida, a sua atual proscrição.
Pound desprezava Milton, dizia que Heinrich von der Vogelweide era um lírico superior a Goethe, e que o maior poeta da língua inglesa, contrariamente à opinião do mundo todo, era Chaucer, não Shakespeare. Todos temos nossas idiossincrasias; lembrando Montaigne: "O problema não está em dizer asneiras; está em dizê-las a sério, compenetradamente".
Enfim, ao reler a primeira ode Pítica, esta última sexta-feira, topei com esta pérola: "Forja a língua na bigorna da verdade". É uma exigência simples, a bem dizer, mas dificílima de pôr em prática. Com o seu habitual bom senso, Aristóteles a formulou de maneira um tanto distinta, porém mais didática: "O poeta não deve dizer o que quer, mas antes o que o poema requer". Como quer que seja, a despeito das convenções coercitivas de um gênero, como o epinício, convencional entre os convencionais, Píndaro conseguiu o milagre de ser original, ousado e estranhamente profundo, no seio mesmo de todas as convenções. Esta sem dúvida é a tal 'beleza difícill', especial e rarefeita, que anda tão fora de moda "in dürftiger Zeit".

2 comentários:

Gustavo Nagel disse...

Érico,

As crônicas esportivas de Nelson Rodrigues são o mais próximo da ode epínica, ao menos em conteúdo, que já li. Não foi outra coisa que ele fez com Zizinho, Garrincha, Pelé etc.

Abraço.

Ricardo Leal disse...

Anotação marginal: Britten compôs Lieder a partir de Hölderlin (http://www.ingentaconnect.com/content/rodopi/wms/2002/00000004/00000001/art00008). Não sabia e fiquei curioso.

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